Que bom que topou fazer a entrevista, Soninha!
Seguem algumas perguntas:
- Há quanto tempo e com qual frequência utiliza a bicicleta para suas atividades diárias? Para quais atividades usa a bicicleta?
>>Há uns 2 ou 3 anos, quando ainda era vereadora. Uso a bicicleta duas ou três vezes por semana para ir e voltar de casa para o trabalho, ou para ir a alguns compromissos a partir da sede da Subprefeitura.
- Quais as vantagens que você vê na bicicleta como meio de transporte? >>Para quem usa: é muito barata (não precisa abastecer...), não faz barulho, permite mudar de caminho com facilidade, permite prestar atenção no mundo de um jeito diferente (mais agradável), é mais fácil de estacionar... (Embora ainda faltem muitos lugares seguros para deixar a bicicleta! A minha tem a vantagem de ser dobrável). Para todos os demais - não polui, não faz barulho, ocupa muito menos espaço.
- O trecho que você costuma percorrer de bicicleta possui ciclovia? >>Tem não.
- Acha que São Paulo está preparada para comportar as bicicletas nas ruas? O que pode melhorar?
>>O que pode e precisa melhorar, mais do que tudo, é o respeito dos motoristas de automóveis, ônibus, motos, etc. Com ou sem ciclovias, se os motorizados não souberem ou perceberem que precisam respeitar os ciclistas, o resto não vai adiantar. Mas precisamos, é claro, de algumas ciclovias, muitas ciclofaixas, rotas sinalizadas, mapas, paraciclos e bicicletários!
- No início do ano, foram inaugurados 48 km de ciclovias, às margens da Marginal Pinheiros. Na sua rotina, isso interferiu de alguma forma?
>>Não... Aquele trajeto eu costumo fazer mesmo de trem, mas não são viagens muito frequentes.
- Um dos objetivos dessa ciclovia era motivar as pessoas a irem para o trabalho de bicicleta. Você percebeu algum aumento nesse número?
>>Ainda não, e nem isso era esperado na primeira etapa, quando só há dois acessos. Por enquanto, a ciclovia em si serve muito mais para lazer do que para trabalho; ela será mais útil no dia-a-dia quando tiver mais acessos - e, mais ainda, quando permitir a travessia para o outro lado do rio. Mas quem usa a bicicleta nos dias de lazer pode acabar se sentindo motivado para usá-la no dia-a-dia, e isso não é tão fácil de perceber logo de cara.
- O que ainda pode ser feito para estimular o uso da bicicleta na cidade? Há algum projeto da prefeitura em andamento a esse respeito?
>>Existem alguns projetos, mas não UM grande projeto. A SubLapa, por exemplo, pretende contratar um grande estudo para definir tudo o que precisa ser feito na região de modo a constituir um Sistema Cicloviário, para, a partir disso, definir as obras prioritárias (porque são mais importantes ou mesmo porque são mais fáceis de fazer, permitindo um resultado imediato). Só estamos aguardando a liberação de recursos do orçamento. A Sub Cidade Ademar já contratou esse estudo. Butantã, Santo Amaro e Pinheiros já o fizeram, com graus diversos de detalhamento. A Secretaria do Verde tem há muito tempo seus vários projetos, a Secretaria de Esporte investiu na Ciclofaixa de Lazer, a CET tem sua diretoria encarregada de bicicletas... E existem as ações do governo do estado, como essa ciclovia da Marginal Pinheiros e a parceria com o Instituto Parada Vital/ Use Bike para empréstimo de bicicletas e instalação de bicicletários junto a estações de trem e de metrô.
- Entre outros aspectos, você defende o uso da bicicleta como forma de diminuir a poluição ambiental na cidade. Qual a relevância do estímulo ao uso das bicicletas nesse processo?
>>Uma vez que temos um número considerável de pessoas usando o automóvel sozinhas, a emissão de poluentes e gases de efeito estufa per capita é muito grande... Sem falar que, com o excesso de veículos, as ruas ficam congestionadas e isso aumenta mais ainda a poluição. Como vários outros lugares do mundo já demonstraram, é possível, com algumas medidas de incentivo, substituir uma parte dessas viagens de automóvel por deslocamentos em bicicleta (ainda que sejam combinados com outros meios de transporte, de preferência coletivos). Até os relatores do IPCC (Painel que reuniu dados sobre mudanças climáticas no mundo todo) recomendaram a ampliação do uso da bicicleta como meio de locomoção.
- Que dicas voce dá para quem quer começar agora a usar a bicicleta como meio de transporte na cidade de São Paulo?
>>Uma dica básica é escolher bem o caminho. Quando a gente sai de bicicleta, precisa pensar de maneira completamente diferente da que pensa quando sai de carro. Não são as mesmas rotas, são outras. Vale muito a pena encompridar um pouco o caminho para evitar uma rua muito movimentada ou íngreme, por exemplo. Em vez de pedalar debaixo do Minhocão, pegar as ruas paralelas... Em vez de seguir pela 23 de maio, descer a Vergueiro e a Liberdade... Planejar sua rota (podendo mudar na hora, se for o caso) faz toda a diferença. Ah, sim, e não esqueça de levar uma boa corrente e cadeado, porque você vai precisar deles quando chegar ao seu destino - seja para amarrar a um poste, seja para deixar em um bicicletário.
- Já pedalou em algum outro país? Caso positivo, quais as principais diferenças em relação à infra-estrutura para os ciclistas pôde perceber entre eles e o Brasil?
>>Em algumas cidades, como Berlim (onde eu pedalei bastante), a bicicleta tem o mesmo status dos outros veículos, isto é, as ruas são feitas tanto para os motorizados quanto para elas. Não são "uma alternativa", são parte do sistema. Tudo é muito bem demarcado e sinalizado - aliás, dando prioridade às bicicletas em muitas situações, e os motoristas acham isso completamente normal (é assim com os pedestres também...). O conflito às vezes acontece entre ciclistas e pedestres, porque muitas ciclofaixas são sobre o passeio (que é sempre bem espaçoso) - o pedestre tem de ficar muito atento para não invadir o espaço delas sem perceber (e se o pedestre é brasileiro, acontece direto...).
- Como o Brasil pode se espelhar em exemplos de outros países para aprimorar o uso da bicicleta como meio de transporte?
>>Investindo BASTANTE na tal da infraestrutura, de maneira sistematizada, de modo a produzir uma grande mudança de uma vez só. Como é um investimento relativamente barato em comparação com outras obras viárias e de transporte, não seria tão difícil produzir essa transformação a curto prazo. Mas ao menos já amadurecemos o suficiente para começar a fazer muitas pequenas intervenções, enquanto as grandes - como a que aconteceu em Bogotá - não vem. Existe essa perspectiva agora com a Copa do Mundo - Porto Alegre, por exemplo, contratou seu projeto de Sistema Cicloviário. E cidades menores, como Sorocaba, também já fizeram grandes intervenções.
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